{"id":351,"date":"2014-06-25T12:20:04","date_gmt":"2014-06-25T12:20:04","guid":{"rendered":"http:\/\/educacaoemnutricao.com.br\/site\/?page_id=351"},"modified":"2015-08-31T13:35:13","modified_gmt":"2015-08-31T13:35:13","slug":"obesidade-medicamentos-e-o-lugar-da-educacao-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/educacaoemnutricao.com.br\/site\/obesidade-medicamentos-e-o-lugar-da-educacao-2\/","title":{"rendered":"OBESIDADE, MEDICAMENTOS E O LUGAR DA EDUCA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Maria Cristina Faber Boog<\/p>\n<p>Na se\u00e7\u00e3o Tend\u00eancias\/Debates da Folha de S\u00e3o Paulo, do dia 17 de Maio, foram publicados dois artigos a respeito do tema\u00a0<em>\u201cInibidores de apetite devem ser proibidos?\u201d<\/em>. Ambos tratam da pertin\u00eancia da resolu\u00e7\u00e3o ANVISA No. 52\/2011, que pro\u00edbe a produ\u00e7\u00e3o e venda dos medicamentos que cont\u00e9m como princ\u00edpios ativos anfepramona, femproporex e mazindol.<br \/>\nO primeiro, a favor da resolu\u00e7\u00e3o, escrito por Dirceu Barbano, farmac\u00eautico, diretor presidente da ANVISA, defende a resolu\u00e7\u00e3o dado que h\u00e1 suficiente respaldo cient\u00edfico para concluir n\u00e3o haver n\u00edveis seguros de uso para esses produtos. Ele afirma que os dados acumulados ao longo de d\u00e9cadas indicam um perfil de seguran\u00e7a e efic\u00e1cia insatisfat\u00f3rios para os medicamentos com esses princ\u00edpios ativos. Argumenta ainda que os riscos a que se submetem os pacientes que os utilizam s\u00e3o injustific\u00e1veis dada a baixa capacidade de se manter permanentemente a redu\u00e7\u00e3o de peso alcan\u00e7ada. Ele aponta ainda o fato de que entre os anos de 2012 e 2013, o percentual de pessoas obesas se estabilizou, pela primeira vez, desde 2006, o que demonstra que n\u00e3o houve aumento da obesidade ap\u00f3s a proibi\u00e7\u00e3o desses medicamentos.<br \/>\nO segundo, escrito por Walmir Coutinho, m\u00e9dico, presidente da Federa\u00e7\u00e3o Mundial de Obesidade, posiciona-se contra a medida legal. Ele reconhece que \u00e9 mais seguro emagrecer s\u00f3 com dieta e exerc\u00edcio, mas entende que ser contr\u00e1rio ao uso do medicamentos revela preconceito, na medida em que nesta posi\u00e7\u00e3o est\u00e1 embutida a ideia de que o obeso \u00e9 pregui\u00e7oso e n\u00e3o tem \u201cfor\u00e7a de vontade\u201d. Afirma que obesidade \u00e9 doen\u00e7a e que \u201cmuitos nasceram com forte tend\u00eancia gen\u00e9tica para acumular gordura e metabolismo lento\u201d, o que justificaria o emprego do medicamento frente ao benef\u00edcio trazido, maior do que o risco de permanecer com peso excessivo. Ele admite ainda que h\u00e1 um uso abusivo desses medicamentos por pessoas que apresentam apenas sobrepeso.<br \/>\nAmbos articulistas restringiram-se a defender seus pontos de vista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pertin\u00eancia, ou n\u00e3o, da Resolu\u00e7\u00e3o ANVISA No.52\/2011. Ambos apresentam argumentos plaus\u00edveis, mas nos cabe, como nutricionistas especializados em Educa\u00e7\u00e3o Alimentar e Nutricional, tecer alguns coment\u00e1rios, para que esta discuss\u00e3o avance em aspectos que os autores n\u00e3o mencionam, mas que nos parecem pertinentes.<br \/>\nEm primeiro lugar, a tend\u00eancia gen\u00e9tica n\u00e3o nos parece justificativa plaus\u00edvel para o aumento dos \u00edndices de sobrepeso e obesidade que vem sendo constatados nos \u00faltimos anos. Grande parte do problema revela um fen\u00f4meno social decorrente de m\u00faltiplos fatores, entre eles, mudan\u00e7as na oferta e no pre\u00e7o dos alimentos, varia\u00e7\u00f5es no poder aquisitivo, influ\u00eancia de meios de comunica\u00e7\u00e3o e, obviamente, cultura do consumo. Portanto, s\u00e3o requeridas a\u00e7\u00f5es educativas, pois o cidad\u00e3o se depara hoje com a necessidade de decidir sobre o que comprar, desafio que, para grande parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira, n\u00e3o existia h\u00e1 20 anos atr\u00e1s. \u00c9 importante lembrar que o sobrepeso e a obesidade passaram a se apresentar como problemas de sa\u00fade p\u00fablica j\u00e1 na d\u00e9cada dos anos noventa.<br \/>\nEm segundo lugar, alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 um comportamento humano, e, como comportamento, \u00e9 moldado na sociedade, em primeiro lugar pela fam\u00edlia. Cabe a todas institui\u00e7\u00f5es que prestam cuidados \u00e0 fam\u00edlia e principalmente \u00e0s crian\u00e7as, cuidar da alimenta\u00e7\u00e3o, ofertando alimentos de boa qualidade e\/ou ensinando crian\u00e7as e fam\u00edlias a cuidar da alimenta\u00e7\u00e3o. A promo\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel deve ser um princ\u00edpio a reger a as a\u00e7\u00f5es de cuidado, assist\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o, especialmente aquelas destinadas \u00e0s crian\u00e7as.<br \/>\nEm terceiro lugar \u00e9 urgente que se cuide do sobrepeso. Fala-se muito em tratamentos cl\u00ednicos, cirurgias, medicamentos para obesidade, como tratou o debate dos dois especialistas, mas&#8230; e o soprepeso?<br \/>\nComo problema alimentar ele demanda aten\u00e7\u00e3o nutricional, por\u00e9m esta n\u00e3o pode ser pautada estritamente na racionalidade t\u00e9cnica, porque como \u00e9 tamb\u00e9m um problema de comportamento, ele demanda, sobretudo, a\u00e7\u00f5es educativas, pautadas na compreens\u00e3o ampla da quest\u00e3o vivenciada, contemplando a subjetividade, a cultura, os sentimentos e a qualidade de vida. Esta \u00faltima \u00e9 um reflexo da posi\u00e7\u00e3o que se ocupa na sociedade, da atitude do consumidor face aos recursos novos que a ascens\u00e3o social recente passa a permitir, da hist\u00f3ria pessoal de vida de cada um e de v\u00e1rios outros fatores que se pode identificar no processo de aconselhamento diet\u00e9tico. A interven\u00e7\u00e3o do nutricionista nestes casos \u00e9 urgente e eficaz, para que o problema inicialmente alimentar n\u00e3o venha a se tornar, de fato, uma doen\u00e7a. Racioc\u00ednio semelhante pode-se aplicar ao processo de manuten\u00e7\u00e3o do peso. Ainda que os medicamentos tenham o poder de reduzir o peso, eles n\u00e3o mudam comportamentos, atitudes, valores e pensamentos. Esta \u00e9 uma outra face do tratamento \u2013 a face da educa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">13\/06\/2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Cristina Faber Boog Na se\u00e7\u00e3o Tend\u00eancias\/Debates da Folha de S\u00e3o Paulo, do dia 17 de Maio, foram publicados dois artigos a respeito do tema\u00a0\u201cInibidores de apetite devem ser proibidos?\u201d. 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