{"id":382,"date":"2015-08-31T13:31:30","date_gmt":"2015-08-31T13:31:30","guid":{"rendered":"http:\/\/educacaoemnutricao.com.br\/site\/?page_id=382"},"modified":"2015-08-31T13:31:30","modified_gmt":"2015-08-31T13:31:30","slug":"educacao-alimentar-e-nutricional-responsabilidade-de-quem","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/educacaoemnutricao.com.br\/site\/educacao-alimentar-e-nutricional-responsabilidade-de-quem\/","title":{"rendered":"EDUCA\u00c7\u00c3O ALIMENTAR E NUTRICIONAL: RESPONSABILIDADE DE QUEM?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Maria Cristina Faber Boog<\/em><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em casa recebemos dois jornais por assinatura. Me surpreendeu o fato de que, em um espa\u00e7o de apenas tr\u00eas dias, assuntos relativos \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o vieram ocupar espa\u00e7os significativos desses jornais. Dois deles versavam sobre a constata\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de pesquisas do fato de que beb\u00eas j\u00e1 tomam refrigerante. O outro trazia uma an\u00e1lise do trabalho de uma jornalista que se dedica a investigar a fidedignidade de informa\u00e7\u00f5es contidas nos r\u00f3tulos de alimentos e denunciar informa\u00e7\u00f5es enganosas. Ambas s\u00e3o contribui\u00e7\u00f5es importantes, por um lado de pesquisadores, por outro de jornalistas. Cada qual em seu papel. \u00c9 importante que a informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o fique restrita aos peri\u00f3dicos cient\u00edficos, mas que ela venha ao p\u00fablico que, afinal, mant\u00e9m as Universidades P\u00fablicas onde, de fato, se faz pesquisa no Brasil. Por outro, \u00e9 papel do jornalista desconfiar de tudo, averiguar e informar. Se os r\u00f3tulos passam uma ideia distorcida sobre os produtos, a sociedade precisa ser informada e alertada a respeito disso, os \u00f3rg\u00e3os de defesa do consumidor devem ser acionados e a legisla\u00e7\u00e3o precisa ser aprimorada. At\u00e9 aqui nada novo, tudo em seu devido lugar. Evidencia-se um crescente interesse pelos assuntos relativos \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 bom, pois trata-se de um tema central para a sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os atos de informar, educar e orientar compartilham algumas inten\u00e7\u00f5es, por\u00e9m s\u00e3o a\u00e7\u00f5es com objetivos espec\u00edficos e diferentes entre si. Para educar \u00e9 preciso orientar, mas educar \u00e9 mais do que orientar. Para orientar \u00e9 preciso informar, mas s\u00f3 informar tamb\u00e9m n\u00e3o basta. Pressup\u00f5e-se, muitas vezes, que a capacita\u00e7\u00e3o do educador possa acontecer pela leitura de guias e documentos, pelo uso de materiais did\u00e1ticos, v\u00eddeos, jogos e um sem n\u00famero de objetos \u201cdidaticamente\u201d desenvolvidos para esse fim. Isso me faz lembrar de tr\u00eas grandes mestres que tive: Rubem Alves, Paulo Freire e Jo\u00e3o Francisco Regis de Morais. Deste \u00faltimo lembro sempre a frase que muito me marcou: \u201cEduca\u00e7\u00e3o \u00e9 encontro humano.\u201d Rubem Alves falou do \u201cespa\u00e7o invis\u00edvel e denso, que se estabelece a dois. Espa\u00e7o artesanal.\u201d, no qual a palavra, o di\u00e1logo (marca da educa\u00e7\u00e3o freireana), o olho no olho fazem toda a diferen\u00e7a. Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que s\u00f3 acontece <em>entre<\/em> pessoas, <em>espa\u00e7o artesanal<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A reflex\u00e3o que desejo compartilhar aqui \u00e9 sobre a maneira como a Educa\u00e7\u00e3o Alimentar e Nutricional vem sendo vista e desenvolvida em certos contextos. Na lei que rege a atua\u00e7\u00e3o do nutricionista, a Educa\u00e7\u00e3o Nutricional \u00e9 considerada uma atividade privativa do nutricionista. Nos documentos oficiais, especificamente no \u201cMarco de Refer\u00eancia de Educa\u00e7\u00e3o Alimentar e Nutricional para as Pol\u00edticas P\u00fablicas\u201d ela \u00e9 definida como \u201cum campo de conhecimentos e de pr\u00e1tica cont\u00ednua e permanente, transdisciplinar, intersetorial e multiprofissional&#8230;\u201d. At\u00e9 o momento n\u00e3o vi ningu\u00e9m questionar esse paradoxo. A lei \u00e9 arcaica ou o marco te\u00f3rico \u00e9 que pressup\u00f5e uma situa\u00e7\u00e3o \u00e0 margem daquilo que est\u00e1 estabelecido na legisla\u00e7\u00e3o? O trabalho de pesquisadores e de jornalistas com os quais iniciei esta reflex\u00e3o s\u00e3o exemplos de informa\u00e7\u00f5es relevantes. Mas, e a educa\u00e7\u00e3o? A tal da educa\u00e7\u00e3o alimentar e nutricional. Quem faz? Como faz?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inclus\u00e3o do adjetivo \u201calimentar\u201d justaposto ao \u201cnutricional\u201d na denomina\u00e7\u00e3o do campo de conhecimento e de pr\u00e1tica \u201ceduca\u00e7\u00e3o alimentar e nutricional\u201d, levou \u00e0 abertura de um canal para que outros profissionais viessem a trabalhar nesse campo, uma vez que a pr\u00e1tica alimentar pode ser analisada sob os mais diferentes aspectos. Isso foi bem-vindo, pois a nutri\u00e7\u00e3o est\u00e1 inserida neste contexto maior da alimenta\u00e7\u00e3o humana. Por\u00e9m, o aspecto nutricional \u00e9 da compet\u00eancia de quem estudou nutri\u00e7\u00e3o. Criado o impasse: a quem compete ent\u00e3o a educa\u00e7\u00e3o alimentar e nutricional? Com que possibilidades e com quais limites? Ao longo do processo de constru\u00e7\u00e3o da Pol\u00edtica Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o e Nutri\u00e7\u00e3o e dos documentos correlatos a ela, percebi colegas aderindo \u00e0s ideias com um certo entusiasmo \u201cpoliticamente correto\u201d, mas pouco cr\u00edtico e pouco realista. Em algumas oportunidades cheguei a fazer esse alerta: n\u00e3o \u00e9 porque uma pol\u00edtica t\u00e3o necess\u00e1ria e ansiada pela categoria est\u00e1 sendo gestada, que devamos concordar com tudo o que est\u00e1 ali colocado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em minhas atividades de consultora, j\u00e1 venho me deparando com preocupa\u00e7\u00f5es de profissionais respons\u00e1veis por programas de educa\u00e7\u00e3o alimentar e nutricional, relativas \u00e0 necessidade de criar meios para garantir que estas atividades se voltem realmente \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, culturalmente referenciada, como preconizam os documentos. Ora, na medida em que o processo sai das m\u00e3os dos t\u00e9cnicos, a observ\u00e2ncia de princ\u00edpios b\u00e1sicos de nutri\u00e7\u00e3o pode ir por \u00e1gua abaixo. E tem acontecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 verdade que a educa\u00e7\u00e3o alimentar e nutricional se far\u00e1 apenas pelos meios de divulga\u00e7\u00e3o para o grande p\u00fablico, atrav\u00e9s das m\u00eddias sociais, de materiais impressos, joguinhos, etc. Mais do que nunca as a\u00e7\u00f5es profissionais nos \u00e2mbitos comunit\u00e1rios, de grupo e individuais, em ambulat\u00f3rios e consult\u00f3rios, tamb\u00e9m s\u00e3o necess\u00e1rios. Quando maior o n\u00edvel de informa\u00e7\u00e3o, mais frequentes e complexos s\u00e3o os questionamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As a\u00e7\u00f5es desenvolvidas pelos nutricionistas no campo da educa\u00e7\u00e3o alimentar e nutricional est\u00e3o se diversificando e sendo sistematizadas por meio de m\u00e9todos e nomenclaturas diversas. Mas n\u00e3o nos esque\u00e7amos de que lidar com o comportamento humano \u00e9 sempre um ato educativo. Mais do que nunca, compreender profundamente a natureza do processo educativo \u00e9 fundamental. \u00c9 necess\u00e1rio estar ciente de que a educa\u00e7\u00e3o junto com a nutri\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente em todas as a\u00e7\u00f5es profissionais nas quais se busca, enfim, melhorar a vida das pessoas melhorando a sua rela\u00e7\u00e3o com a alimenta\u00e7\u00e3o. As informa\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter epidemiol\u00f3gico, as tend\u00eancias no consumo de alimentos e as informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis sobre a evolu\u00e7\u00e3o do estado nutricional s\u00e3o tamb\u00e9m fundamentais para a sele\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es e conte\u00fados em programas educativos. N\u00e3o \u00e9 trabalho para leigos. As bases te\u00f3ricas da Educa\u00e7\u00e3o Alimentar e Nutricional est\u00e3o neste trip\u00e9: ci\u00eancia da nutri\u00e7\u00e3o, ci\u00eancias humanas (pedagogia, psicologia, psican\u00e1lise, sociologia, antropologia) e epidemiologia. \u00c9 por meio desse olhar cuidadoso e multidisciplinar que as a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o em nutri\u00e7\u00e3o devem ser concebidas e desenvolvidas. Por quem? Com que forma\u00e7\u00e3o? Com quais conhecimentos? Com que objetivos? Com quais crit\u00e9rios t\u00e9cnicos e \u00e9ticos?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">31\/08\/2015<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Cristina Faber Boog Em casa recebemos dois jornais por assinatura. Me surpreendeu o fato de que, em um espa\u00e7o de apenas tr\u00eas dias, assuntos relativos \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o vieram ocupar espa\u00e7os significativos desses jornais. 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